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Metodologia de Pesquisa em Comunicação e Culturas Midiáticas
Mestrado em Comunicação da UFPB - Período 2014.1

Horário: Quarta-feira, das 14 às 18 horas

UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO – PPGC
Disciplina: Metodologia da Pesquisa em Comunicação e Culturas Midiáticas
Professor: Marcos Nicolau
Créditos: 04

Ementa: Epistemologia e Metodologia. Empirismo e crítica. Análise de conteúdo e Análise de discursos. Teorias da Interpretação. O problema da hermenêutica. O trabalho teórico e a pesquisa de campo. A pesquisa em comunicação no mundo contemporâneo.

Objetivos:
refletir sobre os conceitos de Epistemologia e Hermenêutica aplicados ao contexto da Comunicação; apreender e aplicar as teorias de análise de conteúdo e do discurso em temáticas de Comunicação; sistematizar pesquisas teóricas e práticas no campo da Comunicação e das Culturas Midiáticas.

Conteúdo programático:

1. Epistemologia e origens históricas do fenômeno comunicacional
- o objeto da comunicação, a transdisciplinaridade, a contemporaneidade;

2. O conhecimento científico da Comunicação
- Modelos teóricos antigos e novos, pós-modernidade e meios de comunicação;

3. A sociedade em rede e o novo paradigma da Comunicação
- A cultura das sociedades informacionais;

4. A pesquisa em Comunicação
- perspectivas, suportes teóricos, instrumentos e abordagens.

Metodologia:
aulas expositivas, discussões e debates, exercícios de pesquisa e seminários.

Avaliação:
os alunos serão avaliados pela assiduidade, participação e qualidade dos trabalhos.

Referências:

BARABÁSI, Albert-László. Linked: a nova ciência dos networks. São Paulo: Leopardo Editora, 2009.

CARDOSO, Gustavo. A mídia na sociedade em rede. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007.

DUARTE, Eduardo. Por uma epistemologia da comunicação. In: LOPES, Maria Immacolata Vassalo (Org.). Epistemologia da comunicação. São Paulo: Edições Loyola, 2003.

EFENDY, A.M. (Org.) Metodologias de Pesquisa em Comunicação: olhares, trilhas e processos. Porto Alegre: Editora Sulina, 2006.

FRAGOSO, Suely; RECUERO, Raquel; AMARAL, Adriana. Métodos de pesquisa para internet. Porto Alegre: Sulina, 2011.

HOHLFELDT, Antonio; MARTINO, Luiz C.; FRANÇA, Vera Veiga (Orgs.). Teorias da Comunicação: conceitos, escolas e tendências. 6. ed. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2001.

LOPES, M.I.V. (Org.). Epistemologia da Comunicação. Col. Comunicação Contemporânea, vol. 1. São Paulo: Edições Loyola, 2003.

MATTAR, João. Metodologia científica na era da informática. 3. ed. Revista e atualizada. São Paulo: Saraiva, 2008.

MAIGRET, Éric. Sociologia da Comunicação e das mídias. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2010.

MARTINO, Luiz C. (Org.). Teorias da comunicação: muitas ou poucas. Cotia/SP: Ateliê editorial, 2007.

POLISTCHUK, Ilana; TRINTA, Aluízio Ramos. Teorias da comunicação: o pensamento e a prática da comunicação. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003.

NICOLAU, Marcos. Fluxo, conexão, relacionamento: um modelo comunicacional para as mídias digitais interativas. In: Culturas Midiáticas. Ano I, n. 01, jul/dez/2008. Disponível em:
http://www.cchla.ufpb.br/ppgc/smartgc/uploads/arquivos/6ed025a91a20101009054815.pdf

PARRY, Roger. A ascensão da mídia: a história dos meios de comunicação de Gilgamesh ao Google. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012.

RÜDIGER, Francisco. As teorias da cibercultura: perspectivas, questões e autores. Porto Alegre: Sulina, 2011.

SANTAELLA, L. Comunicação & Pesquisa: projetos para mestrado e doutorado. São Paulo: Hacker, 2003.

SOUSA, Jorge Pedro. Elementos de teoria e pesquisa da comunicação e da mídia. Florianópolis/SC: Letras Contemorâneas, 2004.

WEBER, M.H; BENTZ, I; HOHLFELDT, A. (Org.). Tensões e Objetos da pesquisa em comunicação. Porto Alegre: Sulina/COMPÓS, 2002.

WOLF, Mauro. Teorias das comunicações de massa. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

WOLTON, Dominique. Pensar a comunicação. Brasília/DF: Editora da UnB, 2005.

______. É preciso salvar a comunicação. São Paulo: Paulus, 2006.

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As práticas comporão um total de três notas, das quais serão extraídas as médias finais.

Atividades para nota:
1. Resenha crítica de obra da área a ser definida no primeiro dia de aula;
2. Produção e apresentação de seminário em grupo;
3. Produção de artigo científico conforme os padrões ABNT de editoração em periódicos.

Os trabalhos aprovados serão encaminhados para publicação.


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METODOLOGIA DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO E CULTURAS MIDIÁTICAS - PPGC
Prof. Marcos Nicolau

RESUMO DAS PRIMEIRAS AULAS

1. O que é Comunicação?
Do latim Communicatio, é o processo de compartilhar um mesmo objeto de consciência. Comum+ação.
Conceitos diversos: fato de comunicar, estabelecer uma relação com alguém; transmissão de signos através de códigos naturais ou convencionais; processo de troca de pensamentos, informações e idéias por fala, gesto, direta ou por meios técnicos; ação de usar meios tecnológicos; a mensagem, a informação: anúncio, notícia, novidade; comunicação de espaços, circulação, transporte – por artérias, estradas; disciplina, saber, ciência ou grupo de ciências.

2. Qual o objeto da comunicação?
Os processos comunicativos no interior da cultura de massas constituem certamente o objeto da comunicação, mas a característica inalienável, e portanto mais própria a esta disciplina, reside na perspectiva que ela adota, ou seja, na interpretação desses processos tendo como base um quadro teórico dos meios de comunicação. Trata-se de uma leitura do social realizada a partir dos meios de comunicação, o que equivale a dizer que meios de comunicação e cultura de massa não se opõem, nem podem ser reduzidos um ao outro, ao contrário, eles exigem uma relação de reciprocidade e complementação. Amplia-se a questão com dois aspectos complementares: 1) o problema filosófico da comunicação enquanto fundamento do homem; 2) o problema histórico da tomada de significação dos processos comunicativos a partir da emergência de um tipo de organização coletiva determinada.
(MARTINO, Luiz C. In: Teorias da Comunicação: conceitos, escolas e tendências.)

O objeto da comunicação não são os objetos “comunicativos” do mundo, mas uma forma de identificá-los, de falar deles – ou de construí-los conceitualmente. Quando se pergunta pelo objeto da comunicação, não nos referimos a objetos disponíveis no mundo, mas aqueles que a comunicação, enquanto conceito, constrói, aponta, deixa ver. A modernidade transformou a comunicação e comunicação em problema; levantou questões em torno de uma prática até então natural, naturalizada. Em torno da comunicação, e como resultado dos esforços de conhecê-la, começaram a surgir estudos, teorias. Uma teoria é um sistema de enunciados, um corpo organizado de idéias sobre a realidade ou sobre um certo aspecto da realidade.
(FRANÇA, Vera Veiga. In: Teorias da Comunicação: conceitos, escolas e tendências.)

Teorias de Modelos em Comunicação

1.
A mass communication research e seus desdobramentos

2. As teorias críticas

3. Os modelos do processo comunicativo

4. As tendências culturológicas e midiáticasConceitos de comunicação nas ciências vizinhas


(SANTAELLA, Lúcia. In: Comunicação e Pesquisa)

Modelos de comunicação e sociedade informacional

A complexidade espacial e temporal da organização social é o ponto de partida para os modelos de comunicação nas sociedades informacionais, dando origem a uma globalização comunicativa. De fato, a informação parece ter substituído a energia nos países mais desenvolvidos e depois se expandindo para todas as áreas do planeta sujeita às regras de mercado.

Do telefone à televisão, passando pela Internet, são mídias porque asseguram de diferentes formas (pelo som, texto e imagem) a transmissão codificada de símbolos, dentro de um quadro predefinido de estrutura de signos, entre emissor e receptor. Entre elas encontram-se as mídias multimídia, que utilizam de uma forma combinada e improvisada (em hipertexto ou não), som, imagem e texto.

Wolton considera a Internet um sistema de informação e não um meio de comunicação social. Slevin, baseado em Thompson, considera que a Internet possui os atributos que nos permitem considera-la um meio de comunicação de massa.

A Comunicação de massa que se desenvolve na Internet pode também ser designada por mass media. Não considerar essas tecnologias como meios de comunicação de massa com base no fato de que não se destinam a um público vasto é incorrer no erro de considerar o usuário da Internet, ou o telespectador, um elemento passivo na equação comunicativa. De acordo com o conceito de campo de Bordieau, na Internet há o uso pessoal, com e-mails e o uso coletivo através da World Wide Web, característica de meio de comunicação de massa ou mass media.

Novas mídias são todos os meios de comunicação, representação e conhecimento (media), nos quais encontramos a digitalização do sinal e do seu conteúdo, que possuem dimensões de multimídia e interatividade.

As macromídias (satélites de TV e Internet) são agentes de globalização dos mercados nacionais, sociedades e culturas. As mesomídias (imprensa, cinema, TV rádio), sob controle governamental e institucional são agentes de integração nacional e mobilização social. As micromídias (telefone, fotocopiadoras, gravadores em geral) são instrumentos de poder para forças na periferia do poder.

A mudança de paradigma está em curso nas nossas sociedades. A ambivalência da Internet a coloca nesse paradigma comunicacional e em outras dimensões como novo modelo.

A partir do conjunto de constatações é possível argumentar que um novo sistema parece ter lentamente se estabelecido ao longo da última década. Durante esse período assistimos ao nascimento simultâneo de centenas de novos títulos de imprensa e ao recurso às mais variadas técnicas de difusão de mensagens, num processo que pode ser caracterizado por a “mídia precede a mensagem” (Eco).

Sendo a Internet um meio de comunicação de massa e ao mesmo interpessoal, as duas dinâmicas encontram-se presentes, em simultâneo. Como base tecnológica, a Internet serve as duas dimensões e por essa razão o mercado e o Estado adotaram-na como o novo elemento central do sistema de mídia.

Para Colombo, a comunicação sintética é fruto das técnicas e processos de socialização que interagindo se alteram simultaneamente. Essa comunicação sintética é assim indutora, pela sua apropriação pelo uso de tecnologias de informação, de uma concepção de espaço e tempo.

A comunicação sintética em rede resulta da forma como as diferentes dimensões de um sistema tecnocultural interagem entre si e o paradigma tecnológico dominante, nesse caso, as tecnologias de informação propiciadoras de modelos de organização em rede e também de uma comunicação em rede.

A comunicação sintética em rede apresenta-se como uma nova forma cultural de relacionar audiências e emissoras, pois funciona segundo uma lógica hipertextual, no sentido em que promove a articulação entre o conceito clássico de texto, o conceito de fluxo e a comunicação interpessoal.

O modelo de comunicação gerado nas sociedades informacionais, onde o modelo de organização social prevalecente é a rede, é o da comunicação sintética em rede, um modelo de comunicação que não substitui os anteriores, antes os articula, produzindo novas formas de comunicação, permitindo também novas formas de facilitação de empowerment individual e conseqüentemente de autonomia comunicativa.
(CARDOSO, Gustavo. In: A mídia na sociedade em rede.)

COMUNICAÇÃO & PESQUISA (Síntese da obra)

Lúcia Santaella (São Paulo: Hacker Editores, 2001)

HISTÓRICO DAS TEORIAS, MODELOS E ÂMBITOS DE PESQUISA NA COMUNICAÇÃO

As teorias, modelos e âmbitos da pesquisa em Comunicação se agrupam em quatro grandes tradições: 1) a mass communication research e seus desdobramentos; 2) as teorias críticas; 3) os modelos do processo comunicativo; 4) as correntes culturológicas e midiáticas. Obras e autores de apoio básico usadas por Santaella: Teorias da comunicação, de Mauro Wolf (1987); Histórias da Comunicação, de A e M. Mattelard (1999).

1. A mass communication research e seus desdobramentos


Três fontes recorrentes de influência para a pesquisa em comunicação nos Estados Unidos, no século XX: 1) identificação dessa pesquisa com o estudo dos meios de comunicação de massa; 2) preocupação com o papel dos meios de comunicação pública na vida social e política; 3) desenvolvimento das práticas profissionais dentro e através das disciplinas das ciências sociais.
Sustenta-se em dois pilares: 1) A sociedade de massa concebida como um agregado que nasce e vive para além dos laços comunitários e contra esses mesmos laços que resulta da desintegração das culturas locais e no qual as funções comunicativas são necessariamente impessoais e anônimas. 2) A teoria da ação elaborada pela psicologia behaviorista e pelas teorias do reflexo condicionado, adaptadas às teorizações mecanicistas sobre a sociedade de massa fornecendo-lhes o suporte em que se apoiavam as convicções acerca da instataneidade e da inevitabilidade dos efeitos dos mass media sobre as massas.
Período: de 1900 à 1980. Principal pesquisador: H. D. Lasswell (obra publicada em 1927: Propaganda techniques in the world war) – para este autor, a mídia age segundo o modelo da “agulha hipodérmica”, que provoca um efeito direto e indiferenciado sobre indivíduos isolados.

2. As teorias críticas


Na contracorrente das mass communication research que se desenvolveu nos Estados Unidos, surgiu na Alemanha, por volta da segunda guerra mundial, na chamada Escola de Frankfurt, um movimento intelectual que passou a ser conhecido sob a rubrica de teoria crítica. O ponto de partida da teoria critica foi a dialética da economia política fundada no materialismo marxista, ou seja, a crítica à sociedade de mercado na qual se dá a alienação dos indivíduos em relação à sociedade como resultante histórica da divisão de classes. Período: a partir da década de 1940. Principais pesquisadores: Horkheimer, Adorno, Walter Benjamin, Herbert Marcuse e Habermas.

3. Os modelos do processo comunicativo

Segundo Laville e Dionne (1999), teorias são generalizações de grande envergadura da ordem das conclusões ou interpretações. Trata-se de uma generalização de explicações concordantes tiradas dos fatos que foram estudados para sua construção. É um conjunto coerente de princípios que configura uma moldura geral de referência para um campo de investigação e que serve para deduzir princípios, formular hipóteses para serem testadas, executar ações etc.
As ciências da computação definem modelo como um sistema matemático que procura colocar em operação propriedades de um sistema representado. Para Fiske (1990), um modelo é como um mapa, representa traços selecionados do seu território, portanto, nunca uma visão completa do todo.
Nöth (1990) classificou os modelos comunicacionais em três grupos: modelos lineares, modelos circulares e modelos que rejeitam o conceito de fluxo de informação, enfatizando a autonomia dos organismos em interação. A esses Nöth acrescentou mais três tipos: modelo lingüístico-funcional, modelo semiótico-informacional e modelo semiótico textual. Em seguida, considerando o surgimento das ciências cognitivas, apresentou um sétimo modelo: o cognitivo.

3.1 Modelos lineares


Se o problema da comunicação consiste em reproduzir em um ponto dado, de maneira exata ou aproximativa, uma mensagem selecionada em um outro ponto, a linearidade está aí expressa nos dois pólos do processo que definem uma origem e um fim. Foi formulado pela primeira vez por Shannon & Weaver.

3.2 Modelos circulares


Quanto aos modelos circulares de comunicação, o primeiro deles já havia sido esboçado por Saussure quando descreveu o caminho dos sinais acústicos (ondas sonoras) como um fluxo de informação em duas direções: de um emissor a um ouvinte e de volta ao emissor. Este é o modelo do diálogo.

3.3 Modelos interativos

É um modelo que enfatiza a autonomia do receptor. Tem se preservado muito provavelmente graças a sua aplicabilidade a fenômenos bem heterogêneos, quer o processo comunicativo se verifique entre máquinas, entre humanos, entre humanos e máquinas, assim como entre microorganismos biológicos. (Autor básico: LASZLO)

3.4 Modelo lingüístico-funcional

A novidade deste modelo está no foco de referencialidade da mensagem, de onde são extraídas as funções da linguagem (proposição de Jakobson). O foco pode estar voltado fora da mensagem, para aquilo a que ela se refere, com função referencial. Também pode estar voltado para qualquer um dos elementos componentes do processo comunicativo: o emissor, quanto se tem a função emotiva, o receptor, quando se tem a função apelativa, o canal, quando se tem a função fática, o código, quando se tem a função metalingüística e, por fim, a própria mensagem, quando se tem a função poética ou estética.

3.5 Modelo semiótico-informacional

O Modelo põe ênfase na necessidade de tratamento da questão da significação ou produção de sentido, baseada na teoria semiótica geral, pois somente esta poderia ser capaz de explicitar a significação inerente ao processo comunicativo através da variável da decodificação e dos sistemas de conhecimentos e competências que a orientam. Desenvolvido por Umberto Eco, para este modelo, segundo Wolf (1987, p. 123) “os efeitos e as funções sociais dos mass media não podem prescindir do modo como se articula, dentro da relação comunicativa, o mecanismo de reconhecimento e de atribuição de sentido, que é parte essencial dessa relação”.

3.6 Modelo semiótico-textual


Desdobramento do Modelo anterior (semiótico-informacional) como parte da evolução interna da própria teoria semiótica, este modelo salienta o elemento da ação interpretativa sobre as mensagens, através dos códigos. Ou seja, na troca comunicativa, não são já as “mensagens” que são veiculadas, o que pressuporia uma posição partidária entre emissores e receptores; é a relação comunicativa que se constrói em torno de “conjuntos de práticas textuais”.

3.7 Modelos Cognitivos

As ciências cognitivas começaram a se formar nos Estados Unidos desde os anos 40 a partir da cibernética, da teoria da informação, do progresso da lógica matemática. Em seguida vieram as pesquisas com inteligência artificial e a sofisticação dos experimentos neuro-fisiológicos e neuro-psicológicos. Para os cognitivistas, a mente é um sistema que recebe, arquiva, recupera, transforma, transmite e comunica informação. Devido a esse alto grau de generalidade, a visão da mente como um sistema processador de informação se tornou dominante, naquilo que ficou conhecido como o modelo computacional da mente. Várias correntes foram desenvolvidas a partir dessa base conceitual levando em conta aspecto da percepção humana no processo comunicacional.

4. As tendências culturológicas e midiáticas


Fazem parte dos estudos que abordam os meios de comunicação e suas implicações como componentes de uma dimensão sócio-antropológica maior, a dimensão da cultura, na qual os meios encontram uma lógica de desenvolvimento que lhes é própria, mas ao mesmo tempo inseparável das injunções culturais. Exemplo dessas tendências é a cultural studies, surgida na Inglaterra nos anos de 1950/60 estudando tanto os significados e os valores que surgem e se difundem nas classes e nos grupos sociais, quanto as práticas efetivas através das quais esses valores e esses significados se exprimem e nas quais estão contidos. São duas as aplicações dos cultural studies: os trabalhos sobre a produção dos mass media enquanto sistema complexo de práticas determinantes para a elaboração da cultura e da imagem da realidade social; os estudos sobre o consumo da comunicação de massa enquanto espaço de negociação entre práticas comunicativas extremamente diferenciadas.

Embora reunidos em torno de diferentes temas de trabalho, tais como etnografia, media studies, teorias da linguagem e subjetividade, literatura e sociedade, todos esses estudos encontram e continuam encontrando uma linha comum de atuação tanto na concepção da cultura como conjunto de todas as práticas sociais e como soma de suas interações, quanto na vinculação de seus trabalhos a questões suscitadas por movimentos sociais, o feminismo, por exemplo.

Foram muitas as tendências, desdobradas, inclusive, a partir das discussões sobre pós-modernidade e com o surgimento das novas tecnologias que começaram a descentralizar a comunicação de massa. (Alguns nomes importantes: McLuhan, Bougnoux, Edgar Morin, Felix Guattari, Baudrillard).

5. Conceitos de comunicação nas ciências vizinhas


Na tradição iniciada por antropólogos e lingüísticas antropológicos, tais como Sapir, Whorf, Malinowski, Firth, Leach e Lévi-Strauss, a comunicação tornou-se um termo chave para a análise das sociedades e das culturas. A tese proposta por G. Bateson de que “toda cultura é comunicação” condensa o amplo escopo do conceito na antropologia cultural. Essa tradição foi particularmente influente para o desenvolvimento da semiótica especialmente nos Estados Unidos. Seguiram-se estudos em ramos como a lingüística antropológica e em áreas como psicoterapia, psiquiatria e psicanálise, bem como na sociologia filosófica de Habermas. Por sua vez, tanto a lingüística e análise do discurso quanto a semiótica, está última concebida com teoria dos signos e também como teoria da significação, compareceram como teorias da comunicação em muitos estudos, embora estas últimas tenham um estatuto que lhes é próprio como ciências.

Considrações finais: “Todas as misturas entre tradições diversas e muitas vezes antagônicas, assim como seu aparecimento em ciências vizinhas, foram fazendo da área de comunicação um campo híbrido e pouco nítido nos seus limites internos e fronteiras. Essa falta de nitidez só vem aumentando nos últimos anos em função da emergência recente de novos fatores que, no dizer de A e M Mattelart (1999: 9), estão situando a comunicação como ‘figura emblemática das sociedades do Terceiro Milênio’”. (SANTAELLA, 2001, p. 73)

METODOLOGIA DA PESQUISA EM COMUNICAÇÃO E CULTURAS MIDIÁTICAS - PPGC
Prof. Marcos Nicolau

A pesquisa em Comunicação exige que se compreendam os textos dos teóricos da área a partir das categorias e dos conceitos que estes abordam. Eduardo Duarte traz, não apenas uma tentativa de compreensão das questões epistemológicas pertinentes ao estudo da Comunicação, mas uma tessitura de conceituações de difícil entendimento a partir de uma simples leitura. O exercício aqui proposto é a leitura e a análise de como se compõe um texto que tenta compreender o que ainda está por se construir nos estudos de Comunicação.

Referência:

DUARTE, Eduardo. Por uma epistemologia da comunicação. In: LOPES, Maria Immacolata Vassalo (Org.). Epistemologia da comunicação. São Paulo: Edições Loyola, 2003. 

Trecho final do artigo: Por uma epistemologia da comunicação, de Eduardo Duarte/UFPE.

Um objeto e um campo possíveis


O exercício que direcionamos aqui é o de olhar mais uma vez para o mesmo tema que já foi e ainda será diversas vezes visitado e analisado ao longo do tempo, enquanto a comunicação como pesquisa ainda mantiver interesse para os seres humanos. Um exercício que estabelece uma tentativa de reenfocar o objeto da comunicação para distender a compreensão sobre ele. Um exercício que nos permite mais do que a ilusão de explicar o objeto, ele nos permite também compreender o percurso do nosso olhar. Passamos a conhecer mais sobre aquele que pergunta do que sobre o que é perguntado. Cada tempo um olhar sobre o mesmo objeto e assim compreendemos mais sobre o espírito do momento em que a pergunta é feita. Isso é o que Paul Ricoeur propõe como uma hermenêutica da cultura.(1)

Tentamos compreender um conceito num novo contexto com a ajuda da etimologia da palavra e de uma filosofia que se aproxima da investigação a que se propõe etimologicamente o conceito. Um exercício que ampliando sua investigação nos permitiria compreender um pouco mais sobre nosso tempo e nós mesmos através de uma hermenêutica da comunicação.

Poderíamos agora tentar localizar os objetos da comunicação a partir do que já percebemos sobre o tema. Pelo caminho em que localizamos uma proposição filosófica em ressonância com o que enxergamos da definição etimológica, torna-se objeto da comunicação o fenômeno do encontro de planos cognitivos que pela percepção do outro são arrastados para uma fronteira criativa de novas formas cognitivas. Torna-se objeto da comunicação essa interface e suas propriedades, o processo de estabelecimento do vínculo que permite o desenho de uma fronteira. Torna-se objeto da comunicação o que emerge, o terceiro plano que não havia antes do encontro de todas as partes dialogantes. Torna-se objeto da comunicação o estar em relacão, ou melhor, a troca.

Sendo assim, o campo da comunicação pode ser teórico, quando este analisa a ontologia desses encontros, quando preocupa-se com os processos que tornam comum um pensamento a um grupo que troca informações. O campo pode ser também empírico quando a mesma discussão ontológica considera a relação com os suportes nos quais os planos cognitivos estão atrelados. É preciso apenas chamar atenção para o fato de que esses suportes não são necessariamente objetos de mídia.

Aqui surge a necessidade de se distinguir os objetos de mídia de objetos da comunicação. Os objetos de mídia, como a televisão, o rádio, o jornal, a Internet necessariamente não estabelecem um diálogo com seus públicos. Podem estar a serviço desse diálogo, mas em si mesmos não trazem interfaces explícitas e inerentes com os planos cognitivos a que se anunciam conduzindo a uma troca que faça emergir um pensamento comum. A disponibilização de informações num site, ou a emissão no ar da freqüência de onda de uma rádio ou de uma emissora de TV não cria por si só um meio de comunicação. É explícito o vetor da transmissão da informação, mas é discutível as manifestações de um diálogo entre os planos cognitivos em ação. Se tomarmos a comunicação como um fenômeno de percepção e troca, não podemos reduzi-la a transmissão de informação, ou seja, os meios não são necessariamente de comunicação. Os meios podem veicular informação e a veiculação da informação é uma das etapas do estabelecimento da comunicação, mas a veiculação por si não indica um fenômeno comunicacional se temos por comunicação os encontros perceptivos entre agentes e os produtos cognitivos que emergem.

O que temos aqui é um deslocamento do objeto e do campo da comunicação. Ao mesmo tempo em que há uma ampliação do que pode ser considerado objeto dessa hermenêutica há, por outro lado e por conseqüência, a delimitação de um campo. Ou seja, o objeto da comunicação se desloca para além dos objetos de mídia, englobando, por exemplo, as manifestações artísticas midiatizadas ou não. Este objeto pode manifestar-se nos estudos das redes neurais e dos sistemas regulares que emergem por ação de atratores. Este objeto pode estar nos estudos das linguagens que atravessam e marcam o corpo com o pertencimento das tribos, passando pelo teatro, pela moda, pela engenharia genética. Este objeto pode está no reflexo antropológico, sociológico, psicológico do encontro desses agentes cognitivos que se expressam através dos veículos de informação, dos discursos políticos, dos movimentos das massas. Entretanto, esse objeto pode não está onde classicamente é visto, localizado e engessado: nos mass media.

O que está em jogo na localização deste objeto, não é o suporte no qual ele se expressa, mas qual a comunhão que ele permite a partir da informação posta na relação. Qual o sentido de troca que se estabelece a partir da percepção recíproca do outro? Se há formas de se localizar esse diálogo dos meios com suas massas que passa a compor de forma mais clara o universo dos que percorrem as fronteiras, teremos um objeto de comunicação, mas um veículo de informação não traz a priori a condição de ser um meio de comunicação.

Em outras palavras, temos aqui a ampliação do objeto e a delimitação de um campo através de uma epistemologia da comunicação, que parte de uma fenomenologia sugerida pela própria etimologia da palavra.

Todas as implicações que surgem do redimensionamento do objeto e do campo da comunicação criam novas perspectivas metodológicas, como também a revisão da utilização das antigas ferramentas. Não se trata de fundar um “pós-qualquer-coisa” como se fosse possível desfazer-se de todas as investidas metodológicas que os pesquisadores da comunicação já desenvolveram. Se a comunicação é o motor da organização complexa dos sistemas cognitivos orgânicos e inorgânicos, ela soma experiências e redimensiona-as no contexto epistemológico que indaga a realidade. Isso implica em criação constante de novos métodos, reconhecimento explícito dos limites naturais de cada método e revisão das ferramentas já utilizadas que nos permitem chegar até aqui levantando questões sobre formas de re-utiliza-las.

A redimensão do campo da comunicação permite uma varredura mais ampla do espectro temático da cognição do homem sem perder de vista um critério que defina e pontua o seu objeto. O objeto delimitado pelo estabelecimento de relações de trocas que geram um plano de entendimento, ou um plano comum às partes, ganha uma zona de fluidez transdisciplinar. Ou seja, o campo se assume transdisciplinar a partir da zona de contato das disciplinas. Uma zona fluida, mas com um campo claro de indagação da realidade. Um objeto visível que emerge pontualmente do fluxo invisível do contrabando de cognições, estabelecendo uma tensão que já faz eco nas ciências com a crise da modernidade. Essa tensão nos tira da zona segura de explicação do mundo das metanarrativas e nos põem na zona de risco da vida, que sempre esteve entre o cristal e a fumaça. (2)

Notas
(1) RICOEUR, Paul. Temps et Récit. Tomo I, Paris: Éditions du Seuil, 1983. p.122.
(2) ATLAN, Henri. Entre o Cristal e a Fumaça. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editora. 1992.

METODOLOGIA DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO E CULTURAS MIDIÁTICAS - PPGC
Prof. Marcos Nicolau

Aula sobre metodologia de estudo e expressão + conteúdo do texto

O que é estudar:

1. Assimilar idéias; 2. refletir sobre as idéias; 3. expressar as idéias.
- A forma como as idéias serão expressas define o método de estudo (como estudar).

O processo de estudar envolve as operações:

1. Pré-leitura (mapear); 2. Leitura (ler e demarcar trechos); 3. Pós-leitura (resumo, esquema etc.).
- A mente não aprende o que ela não conhece (pré-leitura visa conhecer o assunto).

Livro:

A MÍDIA NA SOCIEDADE EM REDE – Gustavo Cardoso* (FGV Editora, 2007)
Capítulo: Modelos de comunicação e sociedade informacional (pág. 99 à pág. 133).

Textos da contracapa:

Este livro é muito oportuno e estabelece a agenda de prioridades de forma totalmente correta. O campo de pesquisa de comunicação e mídia precisa tratar a complexidade da mídia como um processo de mediação no qual velhas e novas tecnologias, assim como seus produtores e consumidores, se combinam e interagem de várias maneiras. O livro fornece provas e argumentos para colocar em prática essa nova agenda. (Roger Silverstone)

O livro que você tem em mãos será amplamente usado e lido nas universidades e organizações de comunicação pelo mundo afora, porque é um dos poucos e melhores exemplos de compreensão da relação entre a mídia e a internet, no amplo contexto de nossa transição para a sociedade em rede. Ele expõe a lógica que atualmente está formando o tecido comunicacional de nossas vidas. (Manuel Castels)

Textos da orelha:


Na sociedade em rede um novo modelo comunicacional vem tomando forma – um modelo caracterizado pela fusão da comunicação interpessoal com a rede de massa, conectando receptores e emissores em uma matriz hipertextual interligando vários dispositivos de mídia.

O modelo de comunicação em rede é aquele das sociedades da informação – um modelo que deve ser compreendido também nos conhecimentos necessários para a elaboração de nossas “dietas” e matrizes de mídia e na forma como está transformando a maneira de administrarmos nossa autonomia e exercermos a cidadania na idade da informação.

Neste livro, Gustavo Cardoso desenvolve uma análise que, com o foco na última década, nos leva da Europa à América do Norte e da América do Sul à Ásia, combinando, sob o arcabouço da sociedade da informação, uma vasta gama de perspectivas científicas dos estudos de mídia à política e da teoria dos movimentos sociais à sociologia da comunicação. (Os editores)

*Sobre o autor: Gustavo Cardoso é professor de tecnologia e sociedade no ISCTE, em Lisboa. Colaborador do Departamento de Comunicação da Universidade de Milão e da Universidade Católica Portuguesa. Foi consultor da presidência da república portuguesa para as políticas da sociedade da informação e telecomunicações.

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METODOLOGIA DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO E CULTURAS MIDIÁTICAS - PPGC
Tópicos da pesquisa coletiva dos alunos da disciplina – 2010.1

Análise de Conteúdo 

O que é

A Análise de Conteúdo é uma técnica de pesquisa para realizar uma descrição objetiva, sistemática e quantitativa de um determinado conteúdo. Aplica-se geralmente a uma grande quantidade de material organizado de maneira lógica e objetiva, possibilitando assim a utilização de métodos de pesquisa, como a dedução, ou seja, os resultados podem ser verificados com a adoção de diversas ferramentas metodológicas. Contudo, ela é considerada superficial, com margem para simplificação e distorções, sofrendo constantes contestações quando adotada como método científico.

Entendemos a Análise de Conteúdo como a supremacia dos números, fazendo dela uma importante peça para diversas disciplinas, adotando-a como uma técnica de pesquisa. Hoje, sua utilização procura adotar uma perspectiva complementar entre o quantitativo e o qualitativo, com diversas parcerias com outras técnicas de investigação.

A Análise de Conteúdo consiste em um apanhado de técnicas de investigação voltado para a descrição objetiva e sistemática dos conteúdos manifestos. Nossa observação é corroborada pela definição apresentada por Bardin (1979, p. 42) quando esta aponta que a Análise de Conteúdo se configura como:

Um conjunto de técnicas de análise de comunicação visando a obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção destas mensagens.

A partir da realização de uma pesquisa exploratória, percebe-se claramente que o conceito de Análise de Conteúdo é polêmico. Autores divergem quanto a ser um método ou uma técnica. Por exemplo, no texto “Análise de Conteúdo” de Fonseca Júnior (2005, p. 280), o autor conceitua “é um método das ciências humanas e sociais destinado à investigação de fenômenos simbólicos por meio de várias técnicas de pesquisa”. No entanto, na sequência do texto, Fonseca Júnior (2005, p 281) cita uma definição do teórico Bernand Berelson, que designa a Análise de Conteúdo como “uma técnica de pesquisa para a descrição objetiva, sistemática e quantitativa do conteúdo manifesto da comunicação (...)”.

Ela pode ser usada para “tirar sentido das informações recolhidas em entrevistas ou inquéritos de opinião, como, por exemplo, quando temos em mãos um grande volume de dados textuais dos quais há que extrair sentido (GHIGLIONE & MATALON, 1997).

A Análise de Conteúdo é uma técnica (BERELSON apud BARDIN, 1979; VERGARA, 2005) ou um método de investigação realizado em diferentes ciências humanas que visa a descrição “objetiva, sistemática e quantitativa” (BERELSON, 1952) do conteúdo apresentado na comunicação. É definida também como uma metodologia de análise que pode ser utilizada em planos qualitativos para tirar sentido em informações colhidas por meio de entrevistas, questionários ou pesquisas de opinião pública em um grande número de dados textuais (GHIGLIONE & MATALON,1997 Apud COUTINHO, 2007). Apesar de ser tratada ora por método, ora por metodologia, ora por técnica (definição mais predominante), a AC ganhou status de ciência quando foi dotada das técnicas de aplicação em textos. O que no meu entender pode definir a AC como método é a sua aplicação também em outros tipos de mídia, tais como os meios de comunicação de massa (rádio, televisão, cinema) como fez Bardin. Em casos como este a AC ganha novas características que a fazem ser mais que uma simples técnica, como pensam os teóricos da Análise de Discurso (AD).

Diferença entre Análise de Conteúdo e Análise do Discurso

A grande diferença entre as duas tendências investigativas está na natureza de ambas: a Análise de Conteúdo é eminentemente quantitativa, ou seja, concentra-se em analisar o conteúdo em sua quantidade, abordando um grande número de informações com o intuito de categorizá-las para, só então, inferir de forma interpretativa sobre os dados coletados, mesmo que possa ser aplicada em pesquisas qualitativas. A Análise do Discurso possui uma natureza qualitativa, visto que não se interessa em inferir suas interpretações por meio do embate numérico dos dados, e sim por uma analítica aprofundada nos interstícios semânticos do objeto de estudo. Na Análise do Discurso o importante é pesquisar como as linguagens são construídas, levando em consideração o discurso em si, o lugar do sujeito e as estratégias discursivas que permitem enxergar essas linguagens como construtos sociais. Assim, para a Análise do Discurso “o que é dito e o tom com que é dito são igualmente importantes e inseparáveis” (MAINGUENEAU, 1993, p. 45).

A Análise do Discurso preocupa-se em compreender os sentidos que o sujeito manifesta através do seu discurso, ou seja, principal diferença entre as duas formas de análise abordadas é que a Análise de Discurso trabalha com o sentido do discurso e a Análise de Conteúdo com o conteúdo do texto (1).

A Análise de Conteúdo baseia-se na descrição analítica e classificativa de dados, desenvolvendo uma análise a partir de uma pré-análise e após a exploração do material e o tratamento dos resultados, procurando suas interpretações e desdobramentos. Já a Análise do Discurso procura analisar o próprio Discurso, principalmente na forma de texto, procurando marcas e traços que identifiquem o contexto histórico-social da sua criação.

De maneira resumida, a Análise de Conteúdo procura realizar uma pesquisa quantitativa em um determinado corpus, e a Análise do Discurso realiza uma pesquisa qualitativa, não objetivando números e resultados quantitativos, e sim, determinados elementos e conceitos em um corpus.

A Análise de Discurso leva em consideração o social na apreciação do texto. Como a relação de poder se constrói no plano discursivo. Em oposição à Análise de Conteúdo, a Análise de Discurso não tenta revelar o que se esconde por trás da construção textual. Tenta articular linguagem e sociedade, entendendo a primeira como uma forma de ação no mundo.

Observando as raízes históricas da Análise de Conteúdo e da Análise do Discurso, considera-se que a segunda emergiu como uma forma de alargamento teórico e ruptura da primeira.

A Análise de Conteúdo aposta no rigor do método, na busca da precisão e na objetividade, acreditando que através de dados quantitativos se poderá alcançar resultados validáveis e confiáveis. Desse modo, a Análise de Conteúdo exclui a subjetividade como fator relevante na conjuntura da realização de pesquisas, como afirmam Rocha e Deusdará (2005, p 309): “(...) residindo nesse processo de descoberta a desconfiança em relação aos planos subjetivo e ideológico, considerados elementos de deturpação da técnica.

De modo divergente, a Análise do Discurso, leva em conta a subjetividade, intencionalidade e ideologia que se instaura no enunciado e busca a desconstrução da mensagem, em discursos. Para a Análise do Discurso é importante que sejam considerados os sujeitos, suas inscrições na história e as condições de produção da linguagem (o que não acontece na Análise de Conteúdo).

Origem, principais autores e respectivas obras sobre Análise de Conteúdo

A Análise de Conteúdo vem sendo utilizada desde o século XVII, por volta do ano de 1640, quando a corte suíça analisou detalhadamente uma coleção de noventa hinos religiosos anônimos, denominados “Os cantos de Sião”, para saber se eles continham idéias perniciosas. Contudo, a adoção regular da Análise de Conteúdo só ocorreu no início do século XX, quando ela passou a ser utilizada em vários campos do conhecimento. Fonseca Junior (2005) exemplifica que a análise de conteúdo foi utilizada nas ciências políticas, na psicologia, na sociologia e etc.

A Análise de Conteúdo tem em sua essência heranças do positivismo (2). De acordo com Rocha e Deusdará (2006) o primeiro grande nome da Análise de Conteúdo foi Harold Lasweel, que publicou em 1927 o livro “Propaganda Technique in the word war”. Depois em 1948, Berelson e Lazarsfeld publicaram a obra “Content analysis in communication research (Análise de conteúdo na pesquisa em comunicação)”, considerada o primeiro manual sobre Análise de conteúdo.

Outra estudiosa de destaque da Análise de Conteúdo é a Laurence Bardin. Em 1977, ela publicou a obra “analyse de contenu”.

A consolidação da Análise de Conteúdo voltada para procedimentos analíticos na área de Comunicação data do início do século XX, mesmo que alguns de seus pressupostos metodológicos já remontassem ao século XVII, como apontam Rocha e Deusdará (2005, p. 308-309, grifo dos autores):

[como exemplo de Análise de Conteúdo prematura temos] a pesquisa de autenticidade feita na Suécia por volta de 1640 sobre os hinos religiosos. Com o objetivo de saber se esses hinos, em número de noventa, podiam ter efeitos nefastos sobre os Luteranos, foi efetuada uma análise dos diferentes temas religiosos, de seus valores e de suas modalidades de aparição (favorável ou desfavorável), bem como de sua complexidade estilística.           

Durante a I Guerra Mundial os Estados Unidos despontaram como pioneiros nos estudos quantitativos ligados a propagandas, caracterizados pelo viés matemático, quantitativo. A partir de 1940, a Análise de Conteúdo se dedicou a analisar a propaganda subversiva nazista nas comunicações na II Guerra Mundial. Os principais autores que trabalharam com Análise de Conteúdo nessa época foram o cientista político Harold D. Lasswell, com sua conhecida obra “Propaganda Technique in World War I” e Paul Lazarsfeld, do qual destacamos a obra coletiva, “El Análisis de Datos en la Investigación Social.

A Análise de Conteúdo experimentou o descrédito dos pesquisadores após a II Guerra Mundial. Contudo, a partir dos anos 50 a Psicolinguística passou a discutir o tema, o que suscitou novas perspectivas metodológicas em áreas como a Etnologia, a Sociologia, a Linguística, a História etc. Devido a tais períodos de aceitação e contestação, a Análise de Conteúdo nos dias atuais desperta questionamentos e dúvidas quanto à sua utilização.

A pesquisadora mais conhecida do tema na atualidade é Laurence Bardin, autora de “Análise de Conteúdo”. Além dela, destacamos o professor de Comunicação da Universidade da Pensilvânia (EUA), Klaus Krippendorff, estudioso da Cibernética, relacionado à Teoria Matemática da Comunicação, ou Teoria da Informação, com sua obra “An Examination of Content Analysis: A Proposal for a Framework and an Information Calculus for Message Analytic Situations”.

Exemplos de estudos de Comunicação com uso da Análise de Conteúdo

A Analise de Conteúdo pode ser aplicada às pesquisas relacionadas à Comunicação, principalmente quando ligada a fatos e situações que ocorrem de maneira constante nas mídias, assim como a sua disposição no meio de divulgação e o interesse do publico pela informação.

Podemos utilizar a Análise de Conteúdo para verificar a incidência e periodicidade de vezes em que a mulher, por exemplo, é representada nas capas de revistas semanais como Veja ou IstoÉ, e que tipo de representação é mais utilizada, ou mesmo verificar a periodicidade com que atores de nacionalidade estrangeira aparecem em telenovelas brasileiras e que tipo de representação é mais freqüente.

Podemos também verificar a disposição das matérias relacionada a um determinado político dentro de um jornal. Se as matérias sobre ele estão sempre na página da direita, considerada a mais importante dentro do jornal; se ela vem na parte superior ou inferior da página; ou se está próxima a um determinado tipo de matéria.

O campo de aplicação da análise de conteúdo é extremamente vasto, já que qualquer transporte de significações de um emissor para um receptor deveria poder ser escrito, logo decifrado pelas técnicas da análise de conteúdo, como explica Laurence Bardin (1979). Um exemplo em que a análise de conteúdo poderia colaborar seria na elaboração de uma pesquisa que buscasse compreender os estereótipos do papel da mulher no enredo de uma novela. Já num segundo exemplo, se uma pesquisa buscasse saber quantas vezes um mesmo discurso aparece numa revista, ou qual a freqüência que aquele conteúdo aparece, a análise de conteúdo poderia colaborar na elucidação da questão.

Podemos aplicar a Análise de Conteúdo em estudos de Comunicação, por exemplo, voltados para a análise de meios impressos, como as revistas, e audiovisuais, como a televisão.

No meio impresso, um estudo que tencione averiguar a presença dos gêneros jornalísticos em revistas mensais de cultura pode fazer uso da Análise de Conteúdo para tal mister. O objetivo é verificar a frequência de gêneros informativos e opinativos nas revistas de videogame, procurando identificar a predominância das categorias. Através da catalogação dos gêneros, podemos efetuar o levantamento desses dados e, posteriormente, analisar as hipóteses propostas pela pesquisa.

Já no meio televisivo, uma pesquisa voltada para a análise da representação das crianças em propagandas comerciais do horário nobre pode se utilizar da Análise do Conteúdo como técnica de levantamento de dados. A intenção é demonstrar de que forma as crianças aparecem nos comerciais, buscando averiguar uma tendência à “adultização” dessas crianças por meio das disjunções semânticas atreladas à infância na publicidade. O pesquisador, munido de fichas catalográficas com variáveis previamente elaboradas, pode categorizar a aparição do público infantil nos anúncios televisivos, como no exemplo abaixo:

Variável ─ personagens envolvidos no comercial:
(1) Crianças.
(2) Adolescentes.
(3) Adultos.
(4) Idosos.
(5) Seres animados.
(6) Coisas, objetos.
(7) Outros.

A Análise de Conteúdo pode ser aplicada em vários estudos de Comunicação, como por exemplo, estudos de reportagens e imagens veiculadas em jornais e revistas. Cito como exemplo, a pesquisa “A tradução do conhecimento científico nas matérias de Saúde da revista Veja (3)”, de autoria de Lia Hecker Luz, na qual ela utilizou a Análise de Conteúdo como percurso metodológico para verificar se as matérias alcançavam um dos objetivos do jornalismo científico - traduzir conhecimentos específicos para uma linguagem acessível ao público.

De mesmo modo, a tese “Retratos do Brasil: análisis de las imágenes de portada publicadas en las revistas brasileñas Veja e IstoÉ”, de Derval Golzio é mais um caso de estudo apoiado na Análise de Conteúdo.


Notas

(1) Disponível em: terezav.files.wordpress.com/2009/11/analise-conteudo-e-discurso.pdf. Acesso em 13/06/10.
(2) Corrente de pensamento desenvolvida por Augusto Comte, cuja principal característica é a valorização da razão, em que a observação rígida e verificável é a única base possível dos conhecimentos.
(3) Disponível em: <http://www2.pucpr.br/reol/index.php/COMUNICACAO?dd1=3336&dd99=view>. Acesso em: 11 de junho de 2010.


Referências


BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1979.

FONSECA JÚNIOR, Wilson Corrêa da. Análise de conteúdo. In: DUARTE, Jorge; BARROS, Antonio (Org.). Métodos e técnicas de pesquisa em Comunicação. São Paulo: Atlas, 2005.

FRASON, Carla Beatriz. ANÁLISE DO DISCURSO: Considerações básicas. Revistade Pós-Graduação da FUCAMP (http://www.fucamp.com.br/nova/revista/revista0612.pdf). Acesso em 12 de junho de 2010.

GHIGLIONE, Rodolphe & MATALON, Benjamin. O inquérito: teoria e prática. 3. ed. (Trad Portuguesa). Oeiras: Celta Editora, 1997.

MAINGUENEAU, Dominique. Novas tendências em análise do discurso. Campinas: Pontes, 1993.

ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise de discurso: princípios e procedimentos. Campinas: Pontes, 2000.

ROCHA, Décio; DEUSDARÁ, Bruno. Análise de Conteúdo e Análise do Discurso: aproximações e afastamentos na (re)construção de uma trajetória. 2005. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/%0D/alea/v7n2/a10v7n2.pdf>. Acesso em: 11 de junho de 2010.

ROCHA, Décio; DEUSDARÁ, Bruno. Análise de Conteúdo e Análise do Discurso: o lingüístico e seu entorno. 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/delta/v22n1/31730.pdf>. Acesso em: 11 de junho de 2010.

VERGARA, S. C. Métodos de pesquisa em administração. São Paulo: Atlas, 2005.


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